Um dos jornalistas mais respeitados da crônica esportiva,
o comentarista Maurício Noriega, falou de forma exclusiva para o Portal
“Torcedores.com”. Conhecido dos gramados, de forma mais assídua, Noriega falou de uma paixão, desconhecida do
grande público, o gosto pelo o voleibol. O comentarista citou como a União
Soviética o fez mudar e ampliar os seus horizontes sobre a modalidade e o
esporte, como um todo. O jornalista ainda ressaltou a influência do vôlei em
sua vida esportiva, profissional, especialmente, os anos como jogador,
carreira, entre vários outros assuntos.
Como surgiu a paixão pelo o voleibol?
Em 1980, a escola em
que eu estudava “Nossa Senhora da Consolação”, montou um time de voleibol para
disputar os Jogos Mirins de 1981, uma competição muito legal, que reunia todas
as escolas de São Paulo. Nosso professor de educação física, o saudoso Antônio
Carlos Enge, nos ensinou a jogar voleibol, montou um bom time e ganhamos a
competição. No dia da final, no ginásio do Pacaembu, o professor Antônio
Martins Filho, o Índio, que era treinador do Paulistano, estava vendo os jogos,
buscando jogadores, e nos convidou para treinar no Paulistano. Eu e mais três
ou quatro amigos, e também atletas do time vice-campeão que virariam grandes
amigos. Assim que eu comecei a gostar do voleibol e a praticar.
Por quanto tempo jogou e quais foram as equipes?
Joguei
competitivamente entre 1981 e 1989, mais ou menos, com algumas paradas.
Comecei no
Paulistano, depois fui para o Pinheiros, onde acho que joguei meu melhor
voleibol e poderia ter ido até à seleção paulista infanto. Mas eu tive
hepatite, e o professor Deraldo Wanderley, que tinha sido meu técnico no
Paulistano e era, por sua vez, o treinador da seleção, me perguntou quando eu
voltaria, porque gostaria de me chamar, mas eu ainda estava me recuperando e
nem conseguiria treinar. O último clube em que joguei foi o Banespa, num
esquema mais profissional. Com o professor Waldemar Talarico, que saiu do
Pinheiros, o Banespa montou seus primeiros times competitivos e saí do
Pinheiros para jogar com ele no Banespa. Um esquema já profissional, com
salário e tudo. Eu não sou muito alto, mas jogava como atacante de ponta, tinha uma impulsão excelente e um braço muito
rápido, era um atleta muito forte fisicamente e treinava pesado, mesmo sem ser
um grande talento. Mas foi ficando difícil, muito treino, mas sem altura era
impossível encarar os caras de 1m90, 1m95, os mais altos daquele período. Hoje,
esses caras são baixos. Precisava estudar, prestar vestibular, e resolvi parar.
Ainda voltei a jogar depois de entrar na faculdade, fiquei uns meses no
Banespa, mas já sem muito pique. Tive alguns convites para voltar a jogar, mas
sabia que não seria competitivo e resolvi tocar a vida no Jornalismo. Mas devo
muito ao voleibol. Tenho até hoje grandes amigos que fiz nas quadras. Joguei
contra e com alguns jogadores espetaculares, como o Maurício Lima, Paulo
Rogério, Piti, Ricardo Mãozinha. Tive excelentes treinadores, conheci grandes
figuras, como o capitão William, Josenildo Carvalho, Zé Roberto, Luizomar
Moura. O voleibol é um ambiente muito gostoso.
Como surgiu a oportunidade de trabalhar com futebol?
Eu comecei a
trabalhar como jornalista na assessoria de imprensa da Federação Paulista de
Basquete. Ainda jogava voleibol, mas já devagar quase parando. Depois consegui
um emprego na Folha da Tarde, que atualmente se chama Agora São Paulo. Comecei
na editoria de geral, depois fui para a Internacional. Um domingo de plantão, o
Fábio Sormani, hoje na Fox Sports, sugeriu ao editor José Roberto Malia, um
grande jornalista, que me aproveitasse no esporte. Aí fui ficando e fiz minha
carreira. Fui para o Diário Popular, Gazeta Esportiva, Lance, SportsJÁ!, Rádio Bandeirantes
e finalmente o SporTV, onde estou desde 2002.
Tem alguma preferência entre vôlei e futebol?
Gosto de esportes.
Considero-me um jornalista esportivo, não apenas de futebol. Já cobri
Olimpíadas, Pan, Mundiais de vôlei, basquete, Natação, Judô, Fórmula 1, Copa
Davis e tudo que se possa imaginar de futebol. Gosto de tudo que envolva
jornalismo e esporte e hoje estou mais no futebol, embora tenha trabalhando
como apresentador na Olimpíada do Rio.
Plasticamente, o que é mais bonito de ser, o vôlei ou futebol?
São esportes muito
diferentes. O voleibol é extremamente tático e coletivo. Não tem jogada
individual no vôlei, não dá para sair driblando, ninguém faz nada sozinho. É um
esporte desafiador, porque não se pode carregar a bola, que é um instinto
natural, meio lúdico. O voleibol exige uma capacidade de observação do
adversário muito grande. O futebol é mais simples e direto e também tem uma
dose de individualidade muito maior. Ainda que a tática e o coletivo sejam
muito importantes. Sozinho, o melhor jogador de voleibol do mundo não vai
ganhar um jogo. Ele não pode sacar, passar, levantar e atacar sozinho. No
futebol, uma jogada individual desmonta um esquema tático e faz o time mais
fraco vencer o mais forte.
A União Soviética realmente foi um marco na vida, como esportista e futuramente, como jornalista?
Aquele time soviético
era meio mítico para a minha geração. Eram tempos distintos, de pouca
informação, sem TV por assinatura, sem SporTV. Lembro que meu saudoso pai, Luiz
Noriega, narrou os jogos de Moscou, em 1980, pela TV Cultura, e falava do time
soviético, de Savin, Zaitsev, Moliboga e também de como o Brasil tinha chegado
muito perto das semifinais, perdendo para a Iugoslávia um jogo que era para
ganhar. Foi um time lendário, que marcou época, como vieram depois a geração de
prata do Brasil, William, Xandó, Montanaro, Renan, Bernard, e o time dos EUA
com o Karch Kiraly, que para mim foi o maior da historia, Pat Powers, Craig
Buck, Steve Timmons. E chega 1992, com o Brasil em Barcelona, também
revolucionando com o time do Zé Roberto, com Carlão, Negrão, Maurício, Paulão,
Tande, Giovane. Aquele time inaugurou o voleibol moderno, que se joga hoje. O
Zé praticamente inventou a posição de oposto. Como jornalista, fui privilegiado
por poder ver aquela medalha de ouro em 1992, com um cara em quadra, o
Maurício, contra quem joguei no infanto e no juvenil. ‘Cracaço’ de bola, um
gênio, um dos maiores levantadores da história e gente da melhor qualidade. No
infanto, pela Fonte São Paulo, de Campinas, ele já jogava como se fosse adulto.
Muito obrigado pela
entrevista ao colega, grande e respeitado jornalista, Maurício Noriega. Valeu
por tudo!









